O banho à noite permitiu que eu sentisse ao máximo o frescor do ar noturno e chuvoso. Escovei os dentes e fui me deitar. Na cama, estava com a barriga pra cima, pernas um pouco afastadas e mãos cruzadas sobre o peito. Comecei a fantasiar uma entrevista que sei que nunca acontecerá. As pessoas prestavam atenção ao que eu falava. E eu falava em voz alta mesmo. Apesar de saber que estava sozinho no quarto, via toda a cena em transparência de 50%, como quando se mexe no Photoshop (ou, pra quem não usa, uma imagem em marca d'água).
A conversa (monólogo) durou até eu me cansar de falar e continuei a fantasia só em pensamento. Depois, ela se esvaeceu. Caí na real. Caí na real e percebi que ainda não estava com sono. E senti uma profunda vontade de conversar com a minha namorada. Ouvir sua voz. Liguei pra ela (dei um toque) e ela retornou. Conversamos sobre muitas coisas. Desde as mais bobas até 'quase debates'. Muito bom. Devo ter um ar grosso e prepotente. Às vezes ela brincava e, mesmo sabendo ser brincadeira, respondia não com seriedade, mas com um tom que julgava neutro, mesmo entendendo que era brincadeira e falando numa boa. Ela pensou que eu estivesse chateado. Mas é como um dia lhe falei: Já dei bom dia e me perguntaram por quê eu estava com raiva. Deve ser um talento natural parecer rabugento mesmo sem estar.
Estava sem óculos e enquanto ouvia sua voz suave (como poucas que já ouvi na vida), distraia minha visão míope com o piscar das luzes verdes do roteador. Nessa condição, a luz se expande, lembra um cristal de gelo. Ou uma flor vista de cima. Talvez sejam essas as comparações que posso fazer no momento. Só sei que me lembra a minha namorada, que diz achar bonitas as luzes dessa forma. Eu também acho.
Inconscientemente, comecei a me tocar por de baixo da bermuda. Percebi somente quando, digamos, não era mais possível que não se percebesse tal ação. A mão saiu, envergonhada, e deixou que as consequências de seu ato indecente fossem embora. Custou, mas foram.
A conversa seguiu. Senti fome de pão integral com requeijão e café com leite. Desligamos e liguei o computador para que continuássemos a conversar pelo msn. Fui preparar meu lanche das 3 da manhã, mas só restara dois dedos do café do jantar. Andando pra lá e pra cá, pensei se valeria a pena preparar mais café. Eu queria café. Preparei. Agora escrevo esse texto e converso com a pinguinha...
Boa noite, vizinhança!